Uma crescente preocupação com a relação entre pessoas e lugares caracteriza o primeiro grupo de 2026 do Sacatar. Essas/es artistas investigam como as pessoas se relacionam com espaços construídos, ambientes naturais e com as histórias e memórias que compõem um território. Em seus trabalhos, essas questões se desdobram em temas como pertencimento, precariedade, deslocamento, memória, impacto ambiental, raça e classe.
A artista soteropolitana Milena Ferreira explora uma “estética da ruína”, examinando memória, transformações materiais e os territórios em mudança da Baía de Todos os Santos. Ela chega à residência com apoio da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SECULT-BA), tornando-se a décima artista a participar do Sacatar por meio desta parceria.
A pintora, fotógrafa e artista multimídia Ana Sant’Anna, da Bahia, se relaciona diretamente com a paisagem como forma de articular a percepção interna e o ambiente externo. A escritora britânico-paquistanesa Faiza Hasan examina o corpo como um recipiente de memória e traumas geracionais, em um novo romance que aborda temas como doença, maternidade e migração.
Trabalhando com cinema, fotografia e instalação, o cineasta Lendl Tellington, dos EUA, explora a tensão entre histórias oficiais e memória coletiva, enquanto desenvolve um documentário centrado na artista senegalesa Younousse Seye.
A artista visual Nina Maia Nobre aborda a paisagem de forma poética e política, investigando como estradas terrestres e marítimas impactam a memória e a identidade brasileiras. O fotógrafo Rodrigo Linhares trabalha por meio de retratos, arquivos e processos de escuta e convívio, investigando os vínculos entre pessoas, território e memórias orais.
Por fim, o artista multidisciplinar brasileiro Marcus Deusdedit – que chega à Itaparica por meio da parceria entre o Sacatar e a ArtRio, como vencedor do Prêmio FOCO ArtRio 2025 – desenvolve instalações multimídia que questionam as relações entre design, arquitetura e estéticas racializadas.
Essas/es artistas estarão em residência no Sacatar de 9 de março a 27 de abril de 2026.

Faiza Hasan
Literatura
Paquistão > Reino Unido
Faiza Hasan é uma escritora britânico-paquistanesa cuja trajetória profissional incluí jornalismo, gastronomia e literatura. Antes de se dedicar à ficção, trabalhou como jornalista para publicações nos Estados Unidos e no Paquistão, cobrindo direitos humanos, política, meio ambiente e educação. Posteriormente, formou-se em culinária francesa pela Le Cordon Bleu, e trabalhou no setor de restaurantes antes de retornar à escrita, desta vez à ficção. Faiza possui Mestrado em Jornalismo pela Universidade de Stanford e Mestrado em Escrita Criativa pela Universidade de Cambridge.
A autora vive com uma condição de dor crônica, e muito de seu trabalho explora eventos pessoais transformadores, como a doença e a maternidade. Ela busca entender como essas experiências alteram o corpo, tornando-o por vezes estranho e pouco confiável. Com foco no corpo feminino e em seu significado na cultura e na sociedade contemporâneas, ela investiga papéis de gênero, dinâmicas de poder e identidade.
Durante sua residência no Sacatar, Faiza irá trabalhar em um novo romance, abordando o corpo feminino como recipiente e guardião de histórias familiares e de traumas geracionais. Este livro em desenvolvimento explora os conceitos de maternidade e pátria-mãe, bem como de pertencimento e alteridade, temas centrais para Faiza enquanto mulher pertencente a uma minoria, mãe e imigrante.


Marcus Deusdedit
Artes Multidisciplinares
Brasil
Parceria Sacatar + ArtRio / Prêmio FOCO
Marcus Deusdedit é um artista multidisciplinar de Belo Horizonte, MG. Ele chega à Itaparica por meio da parceria Sacatar + ArtRio, como vencedor do prêmio FOCO ArtRio 2025.
Arquiteto de formação, Marcus trabalha com diferentes linguagens, da fotografia às instalações multimídia. Sua prática se situa na interseção entre arte, arquitetura e design, explorando deslocamentos estéticos dos códigos desses campos, bem como suas distorções e tensionamentos a partir de questões socioeconômicas e raciais.
Seu trabalho investiga como a criação de imagens e espaços informados por padrões de consumo de uma branquitude de classe média alta é tensionada quando confrontada por estéticas periféricas e de contextos racializados e diaspóricos. Assim, seus projetos focam na relação entre corpo, território e representação.
Marcus participou de exposições institucionais de destaque, como a 14ª Bienal do Mercosul e o 38º Panorama das Artes Brasileiras e, em 2025, foi contemplado com o prêmio Prince Claus Seed Award.
Durante a residência no Sacatar, ele pretende desenvolver projetos de instalações multimídia utilizando o desenho técnico e a modelagem 3D como principais ferramentas de experimentação.

Photo Credit: Anderson Castor

Milena Ferreira
Artes Visuais
Brasil
Parceria Sacatar + SECULT-BA
Milena Ferreira é artista visual de Salvador, Bahia. A chegada de Milena ao Sacatar é um marco: ela é a décima artista baiana a realizar uma residência com apoio da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, no contexto do projeto Bahia Mundo.
A estética da ruína é o eixo central de seu trabalho, que reflete sobre memória, pertencimento e a construção de coletividades, territórios e identidades. Por meio da gravura em diálogo com pintura, escultura e instalação, suas obras lidam com materiais corroídos e estruturas frágeis, utilizando a matéria não como suporte passivo, mas como território de contato, resistência e negociação.
Milena é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), integrante do núcleo de pesquisa do Instituto Práticas Desobedientes, e é criadora do CAB – Circuito de Arte em Boteco. Dentre suas principais exposições estão as individuais Vestígios, na galeria RV Cultura e Arte; Habitar é obra, no Centro Cultural São Paulo; e Flecha no Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC). Antes do Sacatar, ela foi residente no Centro Cultural do Cariri (CE) através do programa Pivô – Conexão.
No Sacatar, Milena irá trabalhar em um livro-objeto-memória, que investiga as transformações materiais e simbólicas da ilha de Itaparica e da Baía de Todos os Santos.
A residência de Milena Ferreira no Sacatar tem o apoio da SECULT-BA através do Apoio à Ações Continuadas do Fundo de Cultura da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.


Instalação (camadas de tinta, massa acrílica e reboco)
2x2m
Crédito: arquivo pessoal

Lendl Tellington
Cinema
EUA
Lendl Tellington é um cineasta e artista visual dos EUA, cuja prática atravessa o cinema, a fotografia e a instalação. Seu trabalho foi reconhecido pela Smithsonian National Portrait Gallery por meio da prestigiosa premiação Outwin Boochever Portrait Competition e já recebeu apoios do Sundance Institute e do Firelight Media Documentary Lab.
O trabalho de Lendl remixa as fronteiras entre histórias oficiais e memória coletiva. Transitando entre o documentário e a narrativa, a fotografia e a instalação, ele utiliza a ficção para questionar e expandir a não-ficção, e vice-versa. Lendl cria relações pessoais com os participantes de seus filmes, garantindo que estes tenham agência sobre suas próprias representações. O resultado são obras que elevam gestos e espaços cotidianos, revelando camadas de conhecimento e significado herdados de gerações passadas, ao mesmo tempo em que incentivam comunidades a reivindicar autoria sobre suas próprias narrativas.
Durante sua residência no Sacatar, Tellington dará continuidade à pós-produção de The Age of All Women: The Becoming of Younousse Seye, um documentário de longa-metragem centrado em Younousse Seye, amplamente reconhecida como a primeira artista contemporânea mulher do Senegal e uma atriz pioneira. Após décadas afastada das galerias e do cinema, Seye confronta as estruturas que moldam a memória das mulheres artistas negras, em um momento em que há um interesse renovado por sua obra.

filme • catálogo de arte (em produção)
Acompanhando a carreira de Younousse Seye, a primeira artista contemporânea do Senegal, este projeto consiste em um filme, um catálogo de arte e uma exposição que examinam as contingências que regem a memória das artistas negras.

Rodrigo Linhares
Fotografia
Brasil
Rodrigo Linhares é artista visual e fotógrafo. Natural de Bento Gonçalves (RS), hoje vive e trabalha na Península de Maraú (BA), onde desenvolve a Teteia Residência Artística e Centro de Memória, iniciativa que articula fotografia, processos gráficos e pesquisa de campo.
Sua prática articula retrato, memória e território a partir de processos de escuta e convivência. Por meio de fotografia e processos gráficos, tanto digitais quanto analógicos, Rodrigo explora arquivos, narrativas orais e paisagens como matérias vivas. Seu foco são modos de representação sensíveis e éticos, atentos às relações entre pessoas, meio ambiente e contextos socioculturais.
Rodrigo já realizou exposições individuais no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), no Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP) e no Lux Espaço de Arte/Edifício Vera, dentre outras. Foi premiado em salões como o SARP e o SAC Piracicaba, além de ser indicado ao Prêmio PIPA (2018) e ao Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia (2017). Também já passou por residências como a Kaaysá Art Residency e o Mirante Xique-Xique.
Durante sua residência no Sacatar, ele pretende aprofundar sua pesquisa sobre retrato, memória e território a partir de trocas com comunidades locais e do convívio com outros residentes, utilizando a fotografia e experimentos gráficos como ferramentas de investigação.

Série “Os Algodões em Azul”
Projeto “Retratado Retratante”
Cianotipia sobre papel Hahnemühle Cold Press 300 g/m²
52,5 × 52,5 cm
Registro realizado durante a exposição “Os Algodões em Azul”, apresentada no Bar da Toinha, entre 6 e 14 de dezembro de 2025.

Ana Sant’Anna
Artes Visuais
Brasil
Ana Sant’Anna é uma artista visual de Salvador, Bahia. Embora mais conhecida por suas pinturas, sua prática também inclui fotografia e instalação. Refletindo sobre temas como luminosidade, transitoriedade e tempo não linear, seu trabalho emerge do testemunho direto da paisagem, articulando mundo interior e exterior.
Ana é Mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e graduada em Museologia pela UFBA. Dentre suas principais exposições estão a individual Maré (ArteFasam, SP) e a mostra em duo Entremarés (Galeria Marília Razuk, SP). A artista também já participou de coletivas como a Telúricos (Galeria Nara Roesler, SP) e Construção no Vento (Claraboia e Flexa Galeria, SP). Antes de chegar ao Sacatar, Ana Sant’Anna foi também residente do Labverde (AM) e do Pororoca + Mirante Xique-Xique (BA).
Durante a residência, Ana pretende investigar as marés, as variações de luminosidade e a passagem do tempo, visando desenvolver um conjunto de pinturas em pequeno formato, além de estudos em papel e registros fotográficos. Ela busca explorar como o contexto do Sacatar pode deslocar seu gesto pictórico e expandir sua percepção da paisagem.


Nina Maia Nobre
Artes Visuais
Brasil
Nina Maia Nobre é artista visual de Brasília – DF. Em seu trabalho, a paisagem é pensada como construção poética e política, a partir de objetos e materiais do cotidiano. Assim, surgem, por exemplo, suas pinturas em saco de ráfia, material normalmente utilizado para armazenar produtos agrícolas e marítimos. Seu trabalho percorre também a palavra, a escultura e a instalação, explorando as relações entre cor, matéria e território.
Nina é mestra em Artes Visuais pela Universidade de Brasília. Desde 2017, participa de exposições e prêmios no circuito nacional, tendo sido vencedora do XVIII Salão de Arte Contemporânea de Jataí (GO) e integrado mostras como o 8º Arte Londrina (PR) e o 1º Salão de Artes Visuais da Galeria Ibeu (RJ). Participou também de exposições como Rumor na Caixa Cultural de Brasília, Pintura como Objeto, na Galeria deCurators, e Ruído, Ruína, Apoteose, na Galeria Index, em Brasília.
No Sacatar, Nina pretende investigar como paisagens rodoviárias e marítimas se articulam na formação da memória e da identidade brasileira. A artista irá registrar histórias e transformações que emergem das margens tanto da estrada quanto do mar.

Pintura acrílica sobre fita crepe, madeira e dobradiças metálicas.
15cm x 6cm (fechado)



