Muitas/os das/os artistas deste grupo abordam a Bahia como um ponto de convergência de tradições, técnicas e formas de conhecimento provenientes de diferentes partes do mundo. Transitando entre escultura, têxteis, coreografia, cinema, escrita e pesquisa, estas/es artistas chegam ao Sacatar com projetos que traçam conexões entre a Bahia e lugares como Senegal, Japão, Nigéria, Caribe, América Latina e Estados Unidos. Assim, as/os residentes se relacionam com a Bahia não como um contexto isolado, mas como um território de intercâmbio histórico e contemporâneo.
O artista visual soteropolitano Álex Ìgbó participa da residência por meio da parceria entre o Sacatar e a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SECULT-BA). Após uma recente guinada para escultura em madeira, Álex traz um projeto que busca recentralizar o simbolismo da cobra nas tradições Fon e Yorubá.
Também da Bahia, a escritora e pesquisadora Cris Rosa — residente retornante — investiga o Sacatar, Itaparica e o oceano como espaços de conexões diaspóricas contemporâneas.
Vinda do Senegal, a artista visual Fatim Soumaré busca expandir para o contexto baiano sua pesquisa comunitária sobre algodão e tradições têxteis africanas. A residência de Fatim conta com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SECULT-BA).
A cineasta e escritora Marina Schneider, do Rio Grande do Sul, desenvolve narrativas centradas em gênero, sexualidade e território através da linguagem do realismo mágico.
Do Reino Unido, o coreógrafo e artista da performance Rhys Dennis explora identidade negra, luto e tradições espirituais afro-caribenhas através do ritmo, do toque e do corpo.
Roberto Visani, artista visual dos Estados Unidos, reinterpreta arquivos e representações históricas da escravidão através da escultura em papelão.
Da Venezuela, a artista visual Rosanna Rios combina técnicas japonesas e nigerianas de tingimento em sua prática têxtil.
Os artistas estarão em residência no Sacatar entre 11 de maio e 29 de junho de 2026.

Álex Ìgbó
Artes Visuais
Brasil
Parceria Sacatar + SECULT-BA
Álex Ìgbó é um artista visual de Salvador, Bahia. Iniciou sua trajetória artística através de intervenções urbanas, com gravuras e lambe-lambes. Há mais de 15 anos, sua prática busca subverter signos e códigos visuais universalizados, abordando questões como gênero, racismo e LGBTfobia. Recentemente, Álex passou a explorar a escultura em madeira, com a série Andem com as cobras elas sabem morrer. O trabalho parte da simbologia das serpentes nas tradições fon e iorubá, com o objetivo de questionar a semiótica ocidental, que historicamente associa esses animais à falsidade e à traição. No Sacatar, Álex busca expandir essa pesquisa e a experimentação com a escultura de talhe em madeira.
Licenciado em Desenho e Plástica e mestre em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (2018 e 2025), Álex participou de exposições como Um Defeito de Cor (Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, 2023/2024, e Sesc Pinheiros, 2024) e Abre-Caminhos (Centro Cultural São Paulo, 2021), além de mostras internacionais como Axé Bahia: The Power of Art in an Afro-Brazilian Metropolis (Los Angeles, Fowler Museum at UCLA, 2017).
A residência de Alex Igbó no Sacatar tem o apoio da SECULT-BA através do Apoio à Ações Continuadas do Fundo de Cultura da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.



Cris Rosa
Literatura/Pesquisa
Brasil
Residente Retornante
Cris Rosa é geógrafa, artista da palavra e pesquisadora baiana. Doutoranda em Geografia pela Universidade Federal da Bahia, é autora do livro Beije Sua Preta Em Praça Pública: Da Apropriação Do Corpo À Apropriação Do Espaço (Editora da UFBA, 2024), obra semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico. Também é fundadora da Lab Rachadura – Laboratório de Estudos sobre a Imbricação Racismo-Sexismo-Capitalismo.
Sua pesquisa se concentra na produção do espaço urbano a partir da interação entre racismo, sexismo e capitalismo, com ênfase na produção criativa e artística de mulheres negras. Nos últimos anos, além de publicar regularmente sobre esses temas, vem desenvolvendo performances e instalações artísticas que exploram memória, representação, corpo e presença negra na cidade.
Cris Rosa chega ao Sacatar como residente retornante. Durante este tempo em Itaparica, dará continuidade à pesquisa iniciada em sua primeira residência, em 2022, centrada no conceito de “Andografias”, uma forma poética de relação entre corpo e deslocamento. Seu objetivo é identificar e mapear fluxos artísticos negros que tenham tido o Sacatar e Itaparica como pano de fundo. A partir de referências como Christina Sharpe e Beatriz Nascimento, sua pesquisa articula investigação acadêmica e criação artística.


Fatim Soumaré
Artes Visuais
Senegal
Parceria Sacatar + SECULT-BA
Fatim Soumaré é uma artista visual e pesquisadora senegalesa que trabalha com o têxtil — não apenas como material, mas também em relação à sua história e às comunidades que o produzem. Baseada na região de Siin, no Senegal, sua prática promove encontros reais e simbólicos entre mulheres de diferentes partes do continente africano que mantêm tradições de tecelagem. Sua pesquisa concentra-se especialmente na história do algodão, em sua circulação pré-colonial pela África, nas práticas vernaculares derivadas dele e em sua posterior exploração industrial.
Em 2021, fundou o Falé, um laboratório-oficina na região de Fatick, onde mais de 200 artesãs fiandeiras e tecelãs Serer colaboram. Esta iniciativa socioartística dedica-se à preservação da prática tradicional da fiação manual do algodão de sequeiro. Soumaré desenvolveu uma metodologia coletiva e participativa, envolvendo-se em todas as etapas do processo — do cultivo das sementes à produção das obras — com ênfase na transmissão de saberes.
Durante sua residência no Sacatar, Fatim pretende aprofundar e descentralizar as narrativas em torno do legado do algodão. Em colaboração com comunidades da Bahia, irá se concentrar em criações experimentais que emergem do compartilhamento de conhecimentos e da observação de práticas locais.
A residência de Fatim Soumaré no Sacatar conta com o apoio da SECULT-BA, por meio do programa Apoio a Ações Continuadas do Fundo de Cultura da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.



Marina Schneider
Cinema / Pesquisa
Brasil
Marina Schneider é cineasta, escritora e roteirista de Capão da Canoa, no litoral norte do Rio Grande do Sul. Mestre em Comunicação com ênfase em Cinema e TV, é fundadora da Belisa Filmes e atua há cinco anos em produções audiovisuais, teatrais e literárias. Como autora, foi premiada no Festival de Roteiro de Língua Portuguesa GUIÕES, em Portugal, e no laboratório Nuevas Miradas, da Escuela Internacional de Cine y Televisión, em Cuba. Dirigiu os curtas-metragens Raiano (2023) e Dentro, fora do Brasil (2024). Na literatura, publicou o livro Teimosia e Memória (Editora Urutau).
Sua prática artística concentra-se na criação de narrativas que articulam gênero, sexualidade e território a partir do realismo mágico, compreendido como uma linguagem capaz de integrar o cotidiano e tensionar dimensões históricas, políticas e simbólicas frequentemente invisibilizadas. Seu trabalho dialoga com o pensamento de Gabriel García Márquez, para quem o realismo mágico ultrapassa os limites de uma corrente artística e literária, constituindo também uma percepção de mundo latino-americana.
Durante a residência no Sacatar, Marina Schneider pretende aprofundar o desenvolvimento de seu primeiro roteiro de longa-metragem, Eguncio, um drama fantástico. A obra acompanha um homem negro já falecido, cuja trajetória é simbolicamente construída a partir da cosmogonia afro-brasileira. Paralelamente, iniciará uma pesquisa de referências teóricas, visuais e sonoras sobre máscaras latino-americanas, afro-brasileiras e africanas, elementos centrais do projeto.


Rhys Dennis
Dança / Coreografia
Reino Unido
Rhys Dennis é coreógrafo e artista da performance, formado pela The Place, em Londres. Nascido no Reino Unido e de ascendência jamaicana, seu trabalho explora as complexidades da experiência negra e a relação, em constante transformação, entre suas identidades queer e afro. Alguns de seus projetos já circularam por plataformas como Aerowaves e Summer Dance Forever e, como performer, já colaborou com artistas como Playboi Carti, Usher e Beyoncé.
Sua prática criativa tem o ritmo como principal ferramenta narrativa, utilizando o corpo como espaço de memória, presença e conhecimento ancestral. Rhys trabalha extensivamente com a comunicação através do toque para investigar personagens e dinâmicas relacionais, ao mesmo tempo em que utiliza a linguagem como ferramenta coreográfica para questionar como o movimento é articulado, compartilhado e tornado acessível em níveis individuais e coletivos.
Durante sua residência no Sacatar, Rhys irá explorar sua relação com o luto a partir de tradições espirituais afro-caribenhas para além do cristianismo. Enraizado em suas origens jamaicanas, seu projeto investiga o ritual como prática viva, examinando como conhecimentos ancestrais são preservados, transformados e ativados no presente. Ao honrar o passado enquanto reimagina sua presença futura, o trabalho busca cultivar uma consciência mais profunda sobre linhagem, memória e corpo.


Roberto Visani
Artes Visuais
EUA
Roberto Visani é um artista visual que vive em Nova York, EUA, e trabalha com escultura, desenho e fotografia. Sua prática se concentra na reinterpretação de artefatos e arquivos da diáspora africana, refletindo sobre concepções do corpo negro como sujeito autônomo e objeto anônimo. Suas esculturas transitam entre representação e abstração em dois conjuntos de trabalhos interligados: Primary Structures, influenciado por tradições escultóricas da África Ocidental, e Cardboard Slave Kit, que convida o público a reconsiderar imagens históricas de pessoas escravizadas.
O trabalho de Roberto já foi exibido no New Museum, Studio Museum in Harlem, Yerba Buena Center for the Arts e Barbican Centre. Fez residências artísticas em instituições como Art Omi, Lower Manhattan Cultural Council e Chelsea College of Arts, em Londres. Sua obra já foi assunto em publicações como The New York Times, Artforum e Frieze. Ex-bolsista da New York Foundation for the Arts na área de escultura e Fulbright Fellow em Gana, atualmente é professor associado da City University of New York.
Durante a residência, Roberto pretende se aprofundar na história local da escravidão e do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, investigando como identidades culturais africanas, europeias e ameríndias se cruzaram nas tradições regionais, especialmente como isso aparece na escultura figurativa baiana. O artista busca expandir sua série Cardboard Slave Kit a partir de referências documentais, culturais e arquitetônicas locais. Roberto também busca fomentar diálogos sobre as diferentes manifestações da escravidão no Brasil e nos Estados Unidos.


Rosanna Rios
Artes Visuais
Venezuela
Rosanna Rios é uma artista visual venezuelana que trabalha com têxteis. Sua prática utiliza os métodos tradicionais japoneses de tingimento katazome e yūzen, que estudou durante seu mestrado e doutorado na Kyoto Seika University. Seu trabalho já foi exibido na VI Bienal de Arte Têxtil Contemporânea “AIR”, no Museo Anahuacalli, no México; em Textile Art of Today, no Danubiana Meulensteen Art Museum, na Eslováquia; na Setouchi Triennale, em Takamijima, Japão; e no Interlacing of Continents Salon, no Miami International Fine Arts, nos Estados Unidos.
Em sua prática, Rosanna aproxima e combina aspectos técnicos do tingimento katazome, do Japão, com o adire eleko, técnica tradicional nigeriana de tingimento por reserva. A partir desse diálogo, reflete sobre a relevância dessas técnicas nas práticas artesanais contemporâneas e seu potencial para a criação de vínculos entre território, memória e produção cultural. Além do trabalho têxtil, sua produção inclui instalações em vídeo que incorporam bordado, desenho e som, explorando temas como vida e morte, temporalidade e identidade.
Durante sua residência, Rosanna continuará investigando os materiais e processos envolvidos no adire eleko e seus paralelos com o katazome, com atenção especial aos materiais utilizados em ambas as tradições. Também irá pesquisar têxteis iorubás, com foco em padrões que foram assimilados pela cultura brasileira.




