Ainda que as/os seis artistas que chegam para a quarta sessão de residência da Sacatar no ano venham de países diferentes e dialoguem com temas e disciplinas criativas distintas, a transformação parece ser um fio condutor comum em suas práticas.
Como o movimento se transforma em música, como um território muda de nome, como o deslocamento molda a experiência de alguém. Em um mundo de crises que se acumulam, essas/es artistas olham para a mudança, o devir e a retomada.
O artista visual francês Claude Eigan, que chega ao Sacatar por meio de uma parceria com a La Friche la Belle de Mai (Marselha), observa metamorfoses na vida oceânica para desafiar compreensões binárias dos organismos vivos;
Entre seus muitos empreendimentos, o artista, curador e colecionador sueco Jonas Liveröd pesquisa a relação entre estados alterados de consciência e criatividade, assim como ritos funerários e da morte;
O trabalho da artista multidisciplinar brasileira Laila Garroni é informado por sua própria experiência de estar constantemente em movimento, pelo contexto mais amplo da diáspora africana e por temas de migração e deslocamento;
A dançarina grega Marianna Sfyridi é radicada no Reino Unido e desenvolve uma prática que conecta dança, capoeira e rituais, com foco em migração, ecologia e conhecimento coletivo;
A artista visual e cineasta baiana Raiz Rozados chega ao Sacatar com apoio da SECULT-BA. Ela busca recriar o mapa de Kirimurê (nome dado pelo povo Tupinambá à Baía de Todos os Santos) a partir de uma perspectiva contracolonial;
A compositora nascida na Coreia do Sul e radicada nos Países Baixos, Seung-Won Oh, integra a sessão por meio da parceria de residência cruzada entre Sacatar e MacDowell. No Sacatar, ela investigará como os movimentos dos percussionistas podem influenciar os dançarinos, e como os sons produzidos pelos movimentos dos dançarinos podem ser incorporados às composições.
Esses artistas estarão em residência no Sacatar de 14 de setembro a 16 de novembro de 2026.

CLAUDE EIGAN
Artes Visuais
França
Em parceria com Friche la Belle de Mai e Villa Fatumbi
Claude Eigan (n. 1983, Saint-Germain-en-Laye, França) vive e trabalha em Marselha. Sua prática em escultura e instalação explora corpos não-normativos, suas vulnerabilidades, e os espaços que habitam e transformam. Enraizado na experiência queer e informado pela ficção científica, seu trabalho altera objetos cotidianos ao manipular sua escala e incorporar elementos corporais para romper sua familiaridade, por meio de um processo que ele descreve como “digestão”.
Durante sua residência na Sacatar, Claude irá expandir sua pesquisa escultórica sobre metamorfose, inspirando-se na vida marinha e em suas formas metamórficas, que desafiam compreensões binárias de corpos e organismos vivos. Por meio do desenho, da escultura em argila e da observação direta do ambiente costeiro da Bahia, sua pesquisa permanecerá aberta à influência das paisagens da ilha, de sua biodiversidade, e das trocas com as/os demais residentes.
O trabalho de Claude já foi exposto no Triangle-Astérides, em Marselha; na Zachęta National Gallery, em Varsóvia; na Gallery Klemm’s, em Berlim; na Maison Populaire, em Montreuil; na Bienal AB7 de Atenas; na Bienal de Bangkok; na Artemis Fontana, em Paris; na Sophie Tappeiner, em Viena; e na Horse and Pony Fine Arts, em Berlim.
Esta residência é parte de uma parceria entre Sacatar e Friche la Belle de Mai, em Marselha. Por meio desta parceria, a Sacatar receberá Claude Eigan (residente da La Friche), e a Friche la Belle de Mai receberá o artista baiano Alex Oliveira (residente da Sacatar).
Esta parceria é apoiada pela Villa Fatumbi e pelo Consulado da França. Mais informações sobre esta parceria aqui.
Em parceria com


Inner Saboteur
Madeira, gesso, resina, tinta, verniz
Dimensões variáveis
2022
Fotografia: Filip Preis

JONAS LIVERÖD
Artes Visuais
Suécia
Jonas Liveröd é um artista, curador e colecionador sueco. Sua prática transita livremente entre escultura, texto, coleções, palestras e vestuário. Trabalhando na interseção entre história cultural e artes visuais, ele utiliza uma “abordagem de colagem” para coletar, curar, arquivar, combinar e compilar ideias, textos, situações, histórias, objetos e imagens.
Seus projetos atuais incluem uma pesquisa sobre grafite histórico, uma maquete mecânica em miniatura do Inferno de Dante, uma obra de arte pública permanente em forma de pavilhão escultórico, acampamentos e aulas experimentais com estudantes, uma grande mostra museológica de suas esculturas, além da coleta de materiais sobre criatividade e estados alterados de consciência para seu arquivo on-line, Otherworldly.
Sua casa na Suécia também funciona como um eclético polo cultural, sediando ateliês, uma biblioteca pública, eventos e residências. Ela abriga ainda dois museus: o Liveröd Wunderkammer, dedicado ao maravilhoso, e o Vanitas Pavilion, um vívido museu sobre a cultura da morte e dos funerais.
Jonas colabora regularmente com instituições de arte na Suécia e no exterior, mais recentemente com uma grande exposição no museu Röhsska, em Gotemburgo. O mais recente livro de Liveröd, Grand Assembly: An Encyclopedic Inventory, é uma enciclopédia artística.
Na Bahia, ele pretende explorar diversos temas, entre eles o teatro de lambe-lambe (que se relaciona com seu trabalho com miniaturas e marionetes) e a história da psiquiatria e da arte no Brasil.


LAILA GARRONI
Literatura
Brasil
Laila Garroni é uma artista multidisciplinar, formada em Jornalismo pela PUC-RS e em Teatro pelo Stella Adler Studio, em Nova York. Ela atua entre o audiovisual, a literatura e o teatro. Em 2024, recebeu o Prêmio Carolina Maria de Jesus de Literatura. Como atriz, roteirista e criadora, produziu filmes, peças de teatro e projetos audiovisuais no Brasil e em Nova York, incluindo Filhos da Liberdade (Amazon Prime) e Calidris, longa-metragem selecionado para o Festival de Cinema de Munique.
Como mulher negra na diáspora, nascida no sul do Brasil e em constante movimento, Laila parte de experiências de desconforto e inspiração, que explora através da arte, ora as celebrando, ora as desmistificando. O afeto negro e o legado da cosmologia africana informam essas investigações. Sua prática envolve a criação de cenários que tornam visíveis e acessíveis aquilo que ela descreve como os caminhos férteis que constrói para si mesma.
Durante sua residência, Laila pretende concluir seu livro Quando o Furacão te Leva para Casa, com foco em seu capítulo final. Ela explorará diferentes gêneros literários em busca de uma forma que complemente a primeira parte do livro, que narra sua jornada de autodescoberta, exílio e cura após um colapso nervoso durante a pandemia de COVID-19 e os protestos pela morte de George Floyd, em Nova York, onde vivia na época.


MARIANNA SFYRIDI
Artes Multidisciplinares
Reino Unido
Marianna Sfyridi é uma dançarina e coreógrafa grega. Com formação em Farmácia e Teatro Físico, seu trabalho transita entre dança, performance e capoeira. O trabalho de Marianna costuma acontecer em espaços não-tradicionais e é informado por uma abordagem anticolonial e não hierárquica.
Originária de uma ilha grega centrada em uma comunidade pesqueira, ela estudou dança na Grécia, no Brasil e no Reino Unido, incluindo na The Place, em Londres. Sua pesquisa de doutorado na University of the Arts London examina como o microcosmo — e, em particular, bactérias do solo — pode atuar como coreógrafo espacial dos seres humanos. Essa pesquisa inclui trabalho de campo no Brasil voltado à antropologia da dança e à relação entre a dança popular grega e a capoeira. Ela frequentemente leciona e coreografa para grupos inclusivos, abordando temas de migração, ecologia e sistemas coletivos de conhecimento.
O foco de Marianna em migração, pertencimento e memória coletiva culminou em NOSTOS: Migrating Bodies, Migrating Dances, um documentário de curta-metragem e projeto de pesquisa baseado em performance, desenvolvido a partir de trabalho de campo pela Europa e pelo Brasil. O projeto examinou como práticas de movimento viajam, se adaptam e persistem através de diferentes culturas.

Fotograma de curta-metragem, 2023
Fotografia: Marianna Sfyridi

RAIZ ROZADOS
Artes Multidisciplinares
Brasil
Em parceria com a SECULT
Raiz Rozados é artista visual, cineasta e artista indígena envolvida no movimento de retomada indígena Pindorama. Ela atua no cinema, na fotografia, na pintura, na cerâmica e na performance ritual. No cinema, Raiz dirige obras híbridas que combinam documentário, ficção, videoarte e ritual. Na pintura, conduz uma pesquisa contínua sobre geotintas e aquarelas artesanais, guiada por uma abordagem poética de retratar pessoas e território utilizando terra.
Reunindo tecnologias ancestrais indígenas, afrodiaspóricas e mestiças, o trabalho de Raiz Rozados conecta memória, território e lutas populares. Ela busca usar a arte como forma de provocação, caminho para a cura e veículo de ficção visionária. Raiz já foi residente nas residências Afrotonizar, Tipiti e Mulher Território, e seu trabalho já foi exibido em festivais como Panorama, Zózimo Bulbul e Guarnicê. Ela também é integrante da plataforma nômade multidisciplinar Balsa e colabora com o Ateliê Mukambu.
No Sacatar, ela busca renovar as conexões entre arte, território e ancestralidade em Kirimurê (nome dado pelo povo Tupinambá à Baía de Todos os Santos). Partindo de pesquisa histórica, cosmogônica e narrativa junto aos Tupinambá, ela planeja coletar pigmentos, criar cerâmicas e produzir geotintas para uma instalação que recria um mapa de Kirimurê a partir de uma perspectiva contracolonial. Para isso, pretende resgatar memórias de quilombos e povoados, desafiando concepções capitalistas de paisagem e criando uma cartografia viva e em constante evolução.
Em parceria com


Raiz Rozados
Pintura em Argila e Urucum sobre papel Canson 300 mg
42 x 59,4 cm

SEUNG-WON OH
Música
Coreia do Sul > Países Baixos
Em parceria com a MacDowell
Seung-Won Oh é uma compositora nascida na Coreia do Sul e radicada nos Países Baixos, cuja música combina o rigor e a imaginação da música erudita contemporânea com dimensões rituais e teatrais. Formada na Coreia do Sul, nos Estados Unidos e nos Países Baixos, ela desenvolveu uma prática artística que transita entre formas de expressão sonora, teatral e ritual, equilibrando investigação intelectual com expressividade visceral. Entre seus destaques recentes estão Spiri III: Sacred Ritual, encomendada pela Royal Concertgebouw Orchestra, e YeonDo, um réquiem teatral encomendado pela November Music, que recebeu o Prêmio Kees van Baaren.
Seung-Won explora ritual, ressonância e forma musical em grande escala por meio de performances orquestrais, de câmara e interdisciplinares. Informado por um pensamento arquitetônico, imaginação espacial e pela presença física dos intérpretes, seu trabalho frequentemente integra elementos teatrais e rituais.
Durante sua residência no Sacatar, ela pretende desenvolver uma obra interdisciplinar de percussão, dança e teatro que explora a relação geradora entre os movimentos dos percussionistas e os sons produzidos pelos dançarinos. Ao reunir os intérpretes em uma ecologia performática compartilhada, ela espera examinar como as ações físicas dos percussionistas podem se tornar material coreográfico, enquanto os sons gerados pelos gestos corporais dos dançarinos e seu contato com o chão se incorporam ao tecido musical.
Seung-Won Oh é a primeira artista a chegar à Sacatar como parte da parceria Sacatar-MacDowell, que cria oportunidades para que residentes passadas/os de ambas as instituições realizem uma residência na outra. Mais informações sobre a parceria Sacatar-MacDowell aqui.
Em parceria com


Fotografia: Alex Schröder



