Pelo quarto ano consecutivo, o Sacatar realiza uma parceria com o Institute for Diversity in the Arts (IDA), da Universidade de Stanford, nos EUA, para promover uma sessão de residência dedicada à investigação das experiências compartilhadas da diáspora africana. O grupo deste ano reúne artistas baseados nos Estados Unidos e na Bahia, cujas trajetórias e origens atravessam diferentes territórios da diáspora. Seus trabalhos abrangem coreografia, arqueologia, artes visuais, cinema e música. Nesse contexto coletivo, as/os artistas terão a oportunidade de refletir sobre como as histórias da diáspora africana moldam as expressões culturais contemporâneas nas Américas.
amara tabor-smith desenvolve trabalhos em coreografia e performance fundamentados em princípios negros, queer e feministas. Sua prática interdisciplinar e comunitária inspira-se nas tradições espirituais Yorubá Lukumí para investigar justiça social, pertencimento, cura e transformação coletiva.
Ayana Omilade Flewellen, arqueóloga feminista negra, artista-pesquisadora e professora assistente da Universidade de Stanford, explora memória, escravidão e diáspora africana por meio da arqueologia, da narrativa e da performance.
A artista britânico-ganesa Enam Gbewonyo trabalha com performance, cinema, instalação e escultura. No Sacatar, ela pesquisará mulheres afro-brasileiras e o Candomblé, desenvolvendo trabalhos que combinam tricô, bordado e performance.
Radicada em Salvador, a artista visual Jess Vieira investiga as interseções entre memória, território e paisagens psíquicas por meio da pintura, da escrita e da arteterapia. Sua residência é apoiada pela SECULT-BA.
O documentarista angolano José Matias Dala Filipe integra esta sessão por meio de uma colaboração entre Sacatar, IDA/Stanford e a UNILAB (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira). Seu trabalho reúne ciências sociais, narrativa audiovisual e tecnologia.
Entre escultura, joalheria, fotografia e poesia, Matheus Freitas investiga memória, espaço e violência histórica, dialogando com técnicas tradicionais do Recôncavo Baiano.
De Nova York, EUA, Monte Marin desenvolve uma prática interdisciplinar que atravessa som, performance, vídeo e poesia, criando espaços de pertencimento para comunidades queer e outros grupos marginalizados.
Essas/es artistas estarão em residência no Sacatar entre 13 de julho e 17 de agosto de 2026.

amara tabor-smith
Dança e Performance
EUA
Parceria Sacatar + IDA/Stanford
amara tabor-smith (ela/elu) é coreógrafa, performer, agente cultural e Diretora Artística da companhia Deep Waters Dance Theater. Sua prática interdisciplinar, concebida em diálogo com o território e com comunidades, utiliza tecnologias espirituais Yorubá Lukumí para abordar questões de justiça social e ambiental, raça, identidade de gênero e pertencimento. Seu trabalho é fundamentado em princípios negros, queer e feministas que enfatizam a libertação, a alegria, a integralidade e o bem-estar. Atualmente, atua como professora-artista em residência na Universidade de Stanford.
Por meio de uma abordagem colaborativa, a prática artística de amara incorpora diálogos intergeracionais, rodas de histórias, rituais de luto e descanso e práticas de cura baseadas no movimento. Ao envolver o público como participante ativo, ela cria espaços em que artistas e espectadores se encontram em um processo compartilhado de vulnerabilidade, conexão e transformação.
Durante sua residência no Sacatar, amara se dedicará à coleta de histórias dos Orixás como parte de sua pesquisa para um projeto performático de longa duração intitulado “(may there be) Good Atmosphere Between Us: The Parables of Now”. Baseado em rituais, o trabalho se constrói a partir de narrativas comunitárias, rituais coletivos e da reinterpretação de mitologias africanas e indígenas da diáspora africana, passagens bíblicas e invocações do feminismo negro. O projeto é orientado pela seguinte pergunta:
Como ativar nossa sabedoria ancestral e nosso espírito coletivo para sobreviver, nos adaptar e nos curar diante da catástrofe climática e do caos político global no Antropoceno?

Foto por Robbie Sweeny.

Ayana Omilade Flewellen
Literatura & Performance
EUA
Parceria Sacatar + IDA/Stanford
Ayana Omilade Flewellen (elu/ela) é arqueóloga feminista negra, artista-pesquisadora e contadora de histórias. É cofundadora da Society of Black Archaeologists (“Sociedade de Arqueólogas Negras”), integra o conselho da Diving With A Purpose (“Mergulhando com Propósito”) e é Professora Assistente no Departamento de Antropologia da Universidade de Stanford.
Os primeiros trabalhos de Ayana — adornos e pequenas instalações produzidos em metal e pedra — estavam enraizados na materialidade da terra. À medida que seu olhar arqueológico se voltou para o mar, sua prática artística também se transformou, evoluindo para a performance como forma de documentar práticas submersas e corporificadas de memória e rememoração.
Durante sua residência no Sacatar, Ayana pretende escrever seu segundo manuscrito, Submergence in the Wake of Slavery: Material Histories and Embodied Memories of the Middle Passage (Submersão no Rastro da Escravidão: Histórias Materiais e Memórias Corporificadas da Passagem do Meio). Com base em pesquisas etnográficas e autoetnográficas subaquáticas realizadas ao lado de mergulhadores que escavam embarcações dos séculos 16 ao 19 utilizadas no tráfico transatlântico de africanos escravizados, na análise de exposições museológicas que utilizam artefatos recentemente recuperados para reconstruir, em terra, cascos de navios negreiros de forma imersiva, e na investigação de práticas artísticas contemporâneas, o manuscrito examina como o ato físico de mergulhar nesses naufrágios produz novas formas de memória histórica corporificada, capazes de transformar as compreensões contemporâneas sobre a Passagem do Meio.

Foto por Kory Lambert.

Enam Gbewonyo
Artes Visuais
EUA
Parceria Sacatar + IDA/Stanford
A artista britânico-ganesa Enam Gbewonyo é bacharel em Design Têxtil pela University of Bradford (Reino Unido) e mestra em Prática Artística pela Universidade de Stanford. Ela é representada pela TAFETA Gallery, em Londres (Reino Unido), e já expôs internacionalmente em instituições como a Fondation H (Madagascar), o Bemis Center for Contemporary Arts (EUA), a Gagosian London (Reino Unido) e a 58ª Bienal de Veneza (Itália).
Trabalhando com performance, filme, instalação e escultura, a prática de Enam imagina futuros de libertação para a coletividade negra por meio da reinterpretação de tecnologias ancestrais africanas, utilizando processos como tricô, tecelagem, gravura e cerâmica. Ao transformar esses materiais em novas formas surreais, a artista cria obras que funcionam como entidades corpóreas: ao mesmo tempo recipientes para os traumas carregados pelos corpos negros e veículos que os transportam para dimensões cósmicas de possibilidade.
Durante sua residência no Sacatar, Enam pesquisará as técnicas tradicionais de bordado de Barrafunda. Também pretende desenvolver uma performance inspirada na Dança Afro, celebrando e homenageando a feminilidade negra e sua capacidade de sobrevivência, memória, conexão, criação, regeneração e expressão divina.

Dimensões: 64 × 68 polegadas.
Técnica: meias-calças novas e usadas, cianotipia sobre algodão tingido com chá, organza de seda tingida com chá, impressão digital sobre organza de seda tingida com chá, guirlandas de salgueiro, galhos, ráfia, búzios, fragmentos de turmalina, fio de seda com ouro verdadeiro e fio reciclado de PET.
Crédito da imagem: Nova Goode-Williams.

Jess Vieira
Artes Visuais
Brasil
Parceria Sacatar + SECULT-BA
Nascida no Cerrado de Brasília e radicada em Salvador, Bahia, a artista visual Jess Vieira é pintora e desenvolve um trabalho que investiga a interseção entre o território vivido e os territórios psíquicos. Sua produção se organiza em torno do eixo corpo-rio-mar-terra vermelha, traduzindo memórias em pinturas que evocam tanto a densidade mineral da terra quanto a fluidez da água. Seu processo criativo parte da observação atenta e da escuta, resultando em telas cujas superfícies são lixadas, friccionadas e construídas em camadas para criar textura e um distanciamento de formas excessivamente polidas ou idealizadas.
Jess é formada em Letras e possui especializações em Estudos Brasileiros (FESPSP) e Arteterapia Junguiana (IJBA), áreas que alimentam sua pesquisa sobre simbolismo e a ampliação de narrativas psíquicas e culturais. Mais recentemente, seu trabalho como arteterapeuta tem ampliado sua prática artística por meio do contato direto com outras pessoas, especialmente mulheres, integrando imaginação, gesto e troca coletiva.
Durante sua residência no Sacatar, Jess dedicará sua pesquisa aos estuários — territórios dinâmicos de alquimia onde rio e mar se encontram. Ao longo da residência, pretende traçar um fio invisível entre suas raízes no Planalto Central brasileiro e o território costeiro da residência, explorando os encontros entre território, memória e imaginação.
A residência de Jess Vieira conta com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SECULT-BA), por meio do programa Apoio a Ações Continuadas do Fundo de Cultura da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.


Óleo sobre linho e algodão, 100 × 100 cm, 2025.
Foto por Renan Benedito.

José Matias Dala Filipe
Imagem em Movimento
Angola
Parceria Sacatar + IDA/Stanford, em colaboração com a UNILAB
José Matias Dala Filipe é um documentarista angolano cujo trabalho se concentra nas relações entre identidade e território. É bacharel em Humanidades pela UNILAB, onde atualmente cursa licenciatura em Ciências Sociais. José Matias é cofundador da TV Malês, criador da OBE TV e autor colaborador da coletânea Entre Fronteiras e Saberes.
Por meio de seus filmes, José Matias investiga temas como identidade, memória, território, diáspora africana e experiências socioculturais. Seus trabalhos articulam documentário, reportagem e narrativas digitais como ferramentas de documentação e reflexão social, buscando dar visibilidade a histórias e saberes frequentemente sub-representados. A partir de sua formação em Ciências Sociais, combina pesquisa, novas tecnologias e técnicas experimentais de edição para criar obras que aproximam arte, educação e transformação social.
Durante sua residência no Sacatar, José Matias desenvolverá o projeto documental “Pontes Diaspóricas: Diálogos entre Malês e Sacatar”. Entendendo a residência como um laboratório vivo de pesquisa, pretende entrevistar as/os demais artistas residentes e documentar seus processos criativos. O projeto também busca evidenciar o papel do Sacatar como espaço de intercâmbio cultural e de construção de pontes entre a pesquisa acadêmica e as culturas diaspóricas.
A residência de José Matias é resultado de uma nova colaboração entre o Sacatar + IDA/Stanford e a UNILAB (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira).

Foto por Pedro Kesongo (Dji Fox).

Matheus Freitas
Artes Visuais
Brasil
Parceria Sacatar + IDA/Stanford
Matheus Freitas é um artista visual de Santo Amaro, Bahia, cuja prática transita entre design, joalheria, escultura, fotografia e poesia. Trabalhando principalmente com ligas metálicas, inspira-se nos saberes tradicionais de ferreiros e joalheiros do Recôncavo Baiano. Sua obra investiga as relações entre matéria, memória e espaço como forma de refletir sobre as violências históricas e seus desdobramentos no presente. Ao longo de sua trajetória, Matheus desenvolveu uma metodologia própria, que denomina “Vendo Formas”.
“Vendo Formas” constitui a base de sua prática artística. Fundamentada na observação de símbolos, estruturas e padrões recorrentes do cotidiano, essa metodologia é utilizada para criar mapeamentos intuitivos que orientam seu processo escultórico. Em seu trabalho, transformação, tempo e memória tornam-se componentes essenciais de suas obras.
Durante sua residência no Sacatar, Matheus mergulhará no contexto da Ilha de Itaparica. Seu interesse estará voltado para a maneira como matéria, tempo e espaço se influenciam mutuamente na ilha, ao mesmo tempo em que explorará processos de comunicação em diálogo com os saberes locais e as práticas ancestrais das comunidades tradicionais itaparicanas.

Aço inoxidável e lente de solda. Corte, soldagem e montagem manual. 70 × 100 × 3 cm.

Monte Marin
Artes Multidisciplinares
EUA
Parceria Sacatar + IDA/Stanford
Monte Marin (elu/ele) é vocalista, compositor, artista de performance multimídia e agente cultural, definindo-se como uma pessoa sem gênero e uma artista sem gênero artístico fixo. Nascide e criade em Nova York, Estados Unidos, é filhe de imigrantes colombianos. Seu filme experimental de performance Born With An Extra Rib recebeu o Queer|Art Recent Work Prize em 2022, o Prêmio do Júri no TRANSlations Seattle Film Festival em 2023 e o prêmio de Melhor Curta Experimental no QueerCine International Film Festival de 2025. Atualmente, cursa o mestrado (MFA) em Prática Artística na Universidade de Stanford.
Transitando entre som, música, composição, performance, vídeo e poesia, o processo artístico de Monte busca criar mundos que posicionam o corpo como um espaço de libertação, oferecendo lugares de reflexão e pertencimento para pessoas que vivem às margens, incluindo comunidades queer, pessoas deslocadas e futuras gerações de artistas da diáspora.
Durante sua residência no Sacatar, Monte desenvolverá uma coleção de escrituras queer e trans inspirada na relação entre território, espiritualidade e organização cultural comunitária. Fundamentado em uma pesquisa contínua sobre luto, encontro e divindade trans, o projeto investigará as relações fluidas entre terra, espírito e corpo trans. Por meio de textos, poemas, propostas de criação e composições musicais e sonoras, Monte produzirá obras de caráter devocional que exploram transformação, conexão e pertencimento coletivo.

Foto por Maria Baranova, 2021.



